Casa da Amendoeira

Literatura feminina existe?

21.11.2017

As mulheres são hoje mais da metade dos leitores de todo o mundo e, de acordo com a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil divulgada em 2016 pelo Instituto Pró-Livro, predominam também por aqui: 59% dos leitores brasileiros são mulheres. É inegável que são essenciais para o mercado editorial. Mas do que falamos quando falamos de literatura feminina? Literatura feita por mulheres, para mulheres e/ou que giram ao redor de personagens femininas e temáticas associadas a esse universo?

Literatura feminina existe? Sim, mas isso não quer dizer que todas as obras escritas por mulheres e/ou com protagonistas femininas devam estrar no mesmo saco. No passado, esse conceito nasceu em meio à luta das mulheres por um lugar em um mercado onde por séculos foram restritas ao papel de musa. Ao longo do tempo, à medida em que as mulheres conquistaram novos espaços fora da esfera da vida doméstica, a ficção foi perdendo algumas marcas de gênero para focar nas diferenças individuais.

Mas com a explosão de bestsellers chick-lit (títulos despretensiosos, com linguagem rápida, estética feminina) nos anos 90 e 2000, como O diário de Bridget Jones e Os delírios de consumo de Becky Bloom, editoras, de olho nas vendas, passaram a concentrar seus esforços em enquadrar os mais diversos títulos na última tendência do momento. O resultado? Uma série de autoras frustradas por verem seus livros vendidos como algo que não eram, ou não foram feitos para ser. A escritora inglesa Polly Courtney, por exemplo, saiu da HarperCollins insatisfeita com as capas fofinhas escolhidas para seus livros. Aos poucos, chick-lit e literatura feminina foram se confundindo. Literatura feminina se tornou um bicho-papão, um termo contestado, por críticos literários, autores e leitores de obras mais literárias por sua conotação pejorativa, sendo associada à propagação de representações nocivas das quais as mulheres não conseguiram se livrar, a histórias açucaradas com doses extras de sensibilidade sobre amor, família, vida doméstica… “coisa de mulherzinha”.

“Como seria uma dicção feminina? Mais sensível, delicada? “, questiona a  escritora, professora e crítica literária

Noemi Jaffe. “Essa visão do que seja uma dicção feminina é muito machista, porque uma narradora mulher pode ter uma dicção grossa, rude, agressiva, e ainda assim ser muito feminina”, afirma.

Mulheres escrevem para mulheres, homens para o público

O fato é que ainda vigora no mercado a ideia de que “homens escrevem para o público, mulheres escrevem para mulheres,” como explica Manini Samarth, professora de Inglês e Estudos Femininos da Penn State University. Não à toa, J.K. Rowling foi aconselhada por sua editora britânica a evitar assinar a série Harry Potter com seu primeiro nome, Joanne, para não afastar os meninos.

E se mulheres hoje brigam de igual para igual com os homens nas listas de mais vendidos, elas raramente aparecem, por exemplo, na lista de grandes ficções do século, salvo, é claro, exceções como Clarice Lispector, Virginia Wolf. Apenas recentemente começaram a furar o bloqueio do cânone literário. Este ano, por exemplo, a FLIP vai teve pela primeira vez mais autoras do que autores, e mais negros do que brancos nas mesas. E aí vale notar que a curadoria deste ano é assinada por uma mulher – a segunda entre nove curadores da festa – e pela primeira vez homenageará um autor negro, Lima Barreto.

TEMÁTICA

Quais são os temas, assuntos, mais comumente associados à, ou gêneros literários abrigados sob o chapéu da, literatura feminina? Na Amazon Brasil, por exemplo, há toda uma subcategoria da loja de livros dedicada à literatura feminina onde você encontra de Apaixonada pelo bandido, de Sandra Rummer, a Clara dos Anjos, de Lima Barreto, e Teoria geral do esquecimento, do José Eduardo Agualusa (a versão em inglês, enquanto a em português está em romance). A seleção não parece seguir qualquer critério razoável, e sim jogar tudo – livros assinados por mulheres ou com protagonistas mulheres – no mesmo saco.

REPRESENTATIVIDADE

Algumas iniciativas vêm sendo criadas para pautar a questão da baixa – e má – representatividade da mulher na literatura. Por exemplo, o Leia Mulheres, projeto que promove encontros mensais ao redor do país para a discussão de obras de escritoras. Ao escolher títulos de autoras clássicas e contemporâneas, o Leia Mulheres não está sugerindo que essas escritoras dialogam sobre as mesmas temáticas ou têm estilos semelhantes. A ideia, neste caso, não é definir literatura feminina, mas contribuir para a maior representatividade de escritoras, em toda a sua pluralidade, no universo literário.

Há ainda a questão da representatividade de mulheres que fazem parte de outras minorias sociais, cujas vozes precisam ser amplificadas, como mulheres negras, lésbicas, transexuais. Em um universo de 258 obras publicadas entre 1990 e 2004 analisadas por uma pesquisa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB, apenas 3 protagonistas e 1 narradora, por exemplo, eram mulheres negras e as outras personagens negras eram geralmente representadas como empregadas domésticas. As mulheres eram 20,8% das personagens homossexuais, que compunham 3,9% do total de personagens. Ou seja: apenas 0,8% das personagens eram lésbicas.

CONCLUSÃO

Como ouvi de um editor recentemente (no início dessa semana, para ser mais precisa), não há formula de sucesso. O perigo de rotular um livro é enquadrá-lo, limitá-lo a algo ao qual não pertence, e ainda oferecer mais do mesmo do que já está no mercado, nas estantes. O perigo de fugir do rótulo é perder leitores que talvez busquem exatamente a segurança oferecida pelo mais do mesmo. “A decisão tomada é sempre a errada. “ Cabe a nós tentar mudar isso.

*Por Maíra Pereira especialmente para Casa da Amendoeira

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